
Entre o encardido, o branco e o branquíssimo
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Pesquisa sobre como pessoas brancas em São Paulo vivem e hierarquizam a própria brancura: classe, região, sotaque e origem fazem uns brancos valerem mais do que outros. É a origem da escala que dá nome aos tons deste site — encardido, branco, branquíssimo. O livro saiu da tese defendida na USP em 2012, que está disponível na íntegra e de graça no repositório da universidade.
Esta é uma nota de leitura, não um resumo da tese. A tese inteira está aberta em PDF no repositório da USP, tem 122 páginas e é para lá que vale ir. O que está aqui é o que se entendeu dela. **O que a pesquisa fez.** Entrevistas e conversas com pessoas que se identificam como brancas na cidade de São Paulo — classes, idades e gêneros diferentes — para entender o que elas próprias entendem por ser branco. Doutorado em Psicologia Social no Instituto de Psicologia da USP, orientação de Leny Sato, defendido em 2012. **A primeira descoberta: a branquitude hierarquiza os brancos entre si.** Não separa apenas brancos de não brancos. Origem, região, classe, gênero e traço físico definem quem é branco de verdade e quem é o branco encardido, e o critério de fundo é a distância em relação a uma Europa imaginada. **E o título não é invenção acadêmica.** Encardido, branco de verdade e branco ralé são palavras ditas pelas próprias entrevistadas, sobre si mesmas e sobre outros brancos. Quando uma delas foi perguntada se conseguia pensar numa escala de brancos, montou uma na hora — e, ao terminar de descrevê-la, reconheceu em voz alta que aquilo era um conceito de raça pura, e que mesmo assim era assim que ela via. É de onde vem a escala de tons que organiza este site. **Duas réguas, não uma.** O encardido é medido no corpo: pele, cabelo, nariz. O branquíssimo é medido em classe e poder — na formulação de uma das entrevistadas, é o branco da elite, o que lê tudo em chave econômica e cujo contato com pessoas não brancas acontece só em situação hierarquizada. Quem confunde as duas réguas perde o essencial. **A ambiguidade como artifício.** As mesmas pessoas que enumeram vantagens concretas recebidas por serem brancas — um emprego conseguido porque a patroa não contratava pessoas negras, um chefe que preferia brancos — respondem ser contra as cotas na pergunta seguinte, e justificam dizendo que o problema do Brasil é de classe. Não é falta de informação: a informação tinha acabado de sair da boca delas. O discurso se parte em dois para que a pessoa possa reconhecer o privilégio e continuar com ele. **O medo branco.** Para explicar essa recusa, a tese recorre a Célia Maria Marinho de Azevedo e ao imaginário das elites do século XIX, que pensavam a população negra como algo a controlar mesmo quando defendiam o fim da escravidão. O que sustenta a recusa não é argumento — os argumentos se contradizem na mesma entrevista. É receio de perder posição. **E a parte que dá esperança, que quase nunca é citada.** A tese separa brancura, que é o corpo, de branquitude, que é a posição e a identificação com ela. A identificação é aprendida, e portanto pode ser desfeita. De todas as pessoas entrevistadas, apenas três chegaram ao que a pesquisa chama de letramento racial — e o que elas tinham em comum não era estudo nem boa índole: era convivência não hierarquizada com pessoas negras. Não conviver, que é comum: conviver sem que uma das partes esteja servindo, cuidando ou ajudando a outra. Nem as relações amorosas inter-raciais produziram esse efeito na amostra paulistana. É a conclusão mais útil da tese para quem lê este site, e é a que está desenvolvida no capítulo 07.